terça-feira, 23 de agosto de 2016

A lenda dos caranguejos do poço de maré do Convento de São Pedro de Alcântara

Os poços de maré existentes um pouco por toda a ilha montanha são também um símbolo da gigantesca epopeia da labuta do Homem do Pico, na transformação da paisagem desta ilha em proveito da sua própria sobrevivência. Muitas vezes, devido à inexistência de fontes, nascentes ou ribeiras, foram os poços de maré que garantiram o único acesso à água durante séculos em algumas comunidades.

Por muitas peripécias passaram certamente os nosso antepassados aquando da construção dos poços de maré, mas há um destes poços que ficará certamente para a história pela forma como foram motivados os seus obreiros: o poço de maré do Convento de São Pedro de Alcântara, situado no Cais do Pico, vila de São Roque do Pico (nas traseiras da atual Pousada de Juventude do Pico).

Este poço tem cerca de 30 metros, o que o torna num dos mais profundos de toda a ilha do Pico (se não mesmo o mais profundo). Numa zona caracterizada pela existência de muita pedra, escavar até encontrar água não foi tarefa fácil, mas recorrendo a uma motivação original, lá se conseguiu atingir o objetivo pretendido. Segundo os escritos do Padre José Idalmiro Ferreira em "Esta Terra Esta Gente", reza assim a lenda:
Exaustos e desanimados pelas buscas infrutíferas de poços ditos de maré, nessa tarde, frades e leigos arrojaram pás, picaretas e enxadas, únicos apetrechos das escavações de então.
Terra, pedra e mais pedra, era o que se lhes deparava a toda a hora sem esperança alguma de verem brotar o precioso líquido. Mas, na madrugada seguinte, ao raiar de uma manhã de sol, à mistura com o gorjeio da passarada, barulho estranho é sentido nesse cerrado circundante.
Diz a tradição que o superior para encorajar os trabalhadores encarregues da abertura do poço de maré, nem mais nem menos, alta noite, dirige-se à costa e apanhando um bom número de caranguejos inseriu-os secretamente nessa escavação, como que para demonstrar a existência do seu "habitat", a água.
Nova esperança raia então nos ânimos dos operários. As escavações continuam e o precioso líquido a alguns metros de profundidade, realmente lá estava, fresco, dessalinizado, para consumo de todos.

Hoje em dia, o poço de maré do Convento de São Pedro de Alcântara integra uma propriedade privada e não está de momento acessível ao público. Contudo, os atuais proprietários estão a recuperar a zona envolvente e planeiam permitir futuramente que todos aqueles que pretendam aceder a este poço o possam fazer.

Em todo o caso, a lenda dos caranguejos do poço de maré do Convento de São Pedro de Alcântara é e será sempre uma parte integrante da história da comunidade do Cais do Pico, em particular, e da ilha montanha, em geral. Esta lenda é também uma lição de vida: com a motivação certa, tudo aquilo que parece extremamente difícil pode ser alcançado!

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