segunda-feira, 22 de abril de 2019

Pico tem as uvas mais caras de Portugal e a área produtiva não pára de aumentar


O vinho do Pico, nomeadamente o licoroso, atingiu uma tão grande fama mundial no início do século XIX que o levou a ser exportado para Inglaterra e colónias, Estados Unidos e Rússia, entre outros — a título de exemplo, os czares russos muito apreciavam este produto, tendo estes enviado propositadamente barcos à ilha do Pico para ir buscar o vinho, não só para degustação mas também para receitas médicas. Hoje em dia, a Paisagem da Cultura da Vinha da ilha do Pico é um sítio classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, sendo que os respetivos muros, se alinhados, dariam duas voltas à linha do Equador.

Estando feito o enquadramento histórico e o devido reconhecimento desta autêntica lição de vida, a questão que se coloca é: o que está a acontecer à vinha do Pico e como atestar a unicidade atual dos seus vinhos?

Em 2004, aquando da classificação da UNESCO, cerca de 120 ha da ilha montanha estavam afetos à vitivinicultura; depois desta classificação veio uma revolução: alargou-se tremendamente a área de vinha, desmatou-se para reativar currais [ver vídeos em anexo] e houve um renovado interesse nas castas autóctones: Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez do Pico. Atualmente, mais de 700 ha de vinha estão em produção no Pico e estima-se que, dentro de poucos anos, quando a totalidade das vinhas estiverem em produção, a ilha terá cerca de 1000 hectares em pleno funcionamento (a título comparativo, a Madeira não vai além dos 450 ha de vinifera).

No entanto, não foi apenas a quantidade que aumentou, mas também a qualidade: numa era onde aquilo que é único, fora de série e que muitos desejam se traduz em ser necessário pagar mais por esse bem, as uvas do Pico são nada mais nada menos (e de longe) as mais caras de Portugal — em 2018, o quilo de Arinto dos Açores foi pago a 3,60 €, o de Verdelho a 4,70 € e o de Terrantez do Pico a 4,80 € (a título comparativo, o quilo de uvas raramente ultrapassa o valor de 1 € nas castas mais valorizadas, como o Antão Vaz ou o Alvarinho no Continente).

Posto isto, quando se poderia pensar que a ilha montanha seria apenas um pequeno lugar, no meio do Atlântico, onde se produz um qualquer vinho, a verdade é que não só é no Pico se que produz mais de 80% dos vinhos certificados dos Açores, como também as respetivas uvas são as mais valiosas do país!

Assim, não será de admirar que os vinhos do Pico estejam (merecidamente) a subir de preço, um comportamento natural atendendo à excecional qualidade deste néctar dos deuses.

Em suma, os números não enganam: a vinha e o vinho do Pico estão na moda!

Haja saúde!

Post scriptum: Este artigo foi igualmente publicado na edição n.º 41.854 do 'Diário dos Açores', de 23 de abril de 2019, bem como na edição n.º 781 do 'Jornal do Pico', de 26 de abril de 2019.


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