terça-feira, 30 de abril de 2019

Obrigações de Serviço Público, SATA e o isolamento do Triângulo (São Jorge, Pico e Faial)


Muito se fala na criação de um hub aéreo concentrado em Ponta Delgada para minimizar custos e tornar a operação da SATA mais eficiente. Contudo, para isso é necessário que exista um incremento de frequências e na oferta de lugares nas ligações inter-ilhas entre São Miguel e as ilhas sem ligação ao exterior ou com menor número de ligações diretas com o exterior.

Na revisão das OSP (Obrigações de Serviço Público) inter-ilhas em 2015, foi reduzido o número de frequências diretas entre Ponta Delgada e as ilhas das Flores, Faial, São Jorge, Pico e Santa Maria; por outro lado, a Terceira viu disparar o número de frequências com outras ilhas. Isto demonstra a imposição de fixar uma placa giratória na ilha Terceira para distribuir o tráfego pelas restantes ilhas do grupo central (Graciosa, S. Jorge, Pico e Faial) e do grupo ocidental (Flores e Corvo). Por exemplo, no caso do Pico, as OSP pré-2015 previam, em Junho e Setembro, 7 frequências mínimas diretas com Ponta Delgada, enquanto que as OSP atuais prevêem apenas 5 frequências semanais.

Quem idealizou estas OSP esqueceu-se do impacto da liberalização do espaço aéreo e dos encaminhamentos a custo zero que fizeram disparar o número de passageiros transportados nas ligações inter-ilhas da SATA Air Açores.

Reportando novamente à situação do Pico, esta ilha movimentava, em 2014 e no caso dos voos inter-ilhas, cerca de 63.000 passageiros, valor que em 2018 ultrapassou a barreira dos 100.000 passageiros, ou seja, um incremento da ordem dos 60%. Esta evolução do tráfego de passageiros não foi acompanhada pelas atuais OSP, pois estas estão completamente desfasadas da realidade. Por exemplo, nos meses de Junho e Setembro, a SATA Air Açores está a realizar 19 frequências semanais diretas entre P.Delgada e o Pico, quando as OSP atuais só têm previstas 5 frequências semanais — dito de outra forma, a SATA está a realizar mais 14 ligações do que o previsto.

Se há 5 anos era possível reservar uma viagem com apenas um dia de antecedência, agora é praticamente impossível, especialmente nas épocas de maior procura. A falta de lugares nos voos inter-ilhas tem criado um grave problema de mobilidade para os residentes que precisam de se deslocar à última da hora por motivos de doença (por exemplo), e também aos turistas que planeiam viagens com menor antecedência.

Este problema levou o Governo Regional e a SATA a anunciar um reforço das ligações inter-ilhas neste ano, com a inclusão, pela primeira vez, de ligações diretas entre São Miguel e as ilhas do Corvo e da Graciosa, o que denota um menor peso da placa giratória da Terceira. Contudo, o que se constata é que estes reforços continuam a ser insuficientes e sucedem-se os mesmos constrangimentos para quem queira se deslocar dentro do arquipélago, principalmente de/para as ilhas Triângulo (São Jorge, Pico e Faial). O problema já se verificou nesta Páscoa e já se antevê novamente um mês de Maio bastante complicado para mobilidade dos residentes destas três ilhas.

Segundo uma pesquisa efetuada no website da SATA, quem queira se deslocar no mês de Maio de São Miguel para São Jorge, Pico ou Faial, verifica que tem 12 dias completamente esgotados de um total de 31 dias. Por outro lado, quem pretende chegar a São Miguel a partir de São Jorge depara-se com 14 dias esgotados, o Pico com 11 dias e o Faial com 5 dias. Ou seja, os (potenciais) clientes da SATA Air Açores não conseguem chegar/partir destas ilhas durante meio mês, o que demonstra claramente que estas ilhas estão “isoladas”.







Se já estamos assim no início da época média, como será nos meses de época alta (Julho e Agosto), altura das maiores festas do Triângulo? Teremos o mesmo caos de anos anteriores? Não serviu de lição a quem trata do planeamento no seio do Grupo SATA?

Estas três ilhas do Triângulo devem ver a oferta de frequências e lugares com São Miguel revista em alta, mas para isso é necessário um planeamento cuidado, em constante monitorização e equitativamente distribuído pelas três ilhas, algo que infelizmente não tem sido tido em conta pelos responsáveis da SATA, os quais continuam ano após ano a cometer os mesmos erros. Pior são os casos de reforço de frequências e lugares decididos na esfera política que não respondem à procura efetiva, ou reforços desnecessários por a oferta existente estar ajustada à procura. Estes são aspetos importantes a não esquecer aquando da revisão das futuras OSP, sobretudo no que toca à crescente importância de ter mais ligações diretas com São Miguel, bem como um número de frequências adequadas, e não estar a obrigar os clientes a “transitar” pela Terceira sem necessidade.

Haja saúde!

Luís Ferreira
Ivo Sousa
Bruno Rodrigues

Nota: Durante a escrita deste artigo foram adicionados alguns voos extra nos percursos em questão; este não só é um pequeno contributo que ainda não resolve o problema de fundo, mas também mostra como os voos regulares são insuficientes para atender à procura. Eis um exemplo da falta de resposta atempada da SATA à procura – para a última semana de Maio já não havia lugares em 5 dias consecutivos entre São Miguel e o Pico, isto desde meados de Abril, e até então nada tinha sido feito para solucionar esse problema. Só quando surgiram as primeiras queixas, lá a SATA colocou, a 23 de Abril, um voo extra para 28 de Maio, o qual esgotou em apenas dois dias. Mais uma vez, prova-se que se existissem mais voos, mais gente viajaria, porque a procura não só existe, como continua a crescer!


Post scriptum: Este artigo foi igualmente publicado na edição n.º 41.859 do 'Diário dos Açores', de 30 de abril de 2019.

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