quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Contas à moda da SATA


Recentemente foi emitido um comunicado (datado de 11 de janeiro de 2019) a informar que a Azores Airlines vai reforçar as ligações entre Lisboa e o Pico no próximo Verão IATA 2019. Em suma, os principais pontos a reter são os seguintes:
  • Entre abril e outubro serão realizados mais 12 voos nesta rota do que em 2018;
  • No mês de setembro será disponibilizada mais uma frequência semanal, passando-se de 3 para 4;
  • A capacidade oferecida será aumentada em 7,4%.
Vale ainda a pena citar dois parágrafos deste comunicado, para análise posterior:
O planeamento da operação aérea direta entre Lisboa e a ilha do Pico teve em consideração o histórico da taxa de ocupação registada na estação homóloga do ano anterior, a perspetiva de crescimento da procura, que nesta rota está estimada em 5% e, naturalmente, os meios técnicos de que dispõe a Azores Airlines.
De salientar ainda, que a oferta da Azores Airlines é complementada com a da SATA Air Açores cuja operação no próximo verão será incrementada no número de frequências e de lugares oferecidos.
Analise-se, então, o conteúdo deste comunicado, de forma a concluir do seu bom enquadramento (ou não) perante a realidade da ilha montanha.

Como ponto prévio, é justo reconhecer que a SATA, com este comunicado, explicita qual é a sua política para o Pico, ficando toda a gente a saber, logo à partida, com o que é que pode contar.

Recordando que um Verão IATA começa no último domingo de março e termina no último sábado de outubro, ou seja, grosso modo, corresponde ao período de tempo entre abril e outubro, é importante clarificar que aumentar voos num Verão IATA não implica que o "pico" do verão (julho e agosto) seja também contemplado. Aliás, o reforço anunciado pela Azores Airlines na rota Lisboa/Pico/Lisboa terá maioritariamente lugar em setembro, onde serão efetuadas mais quatro rotações face a 2018. E o que é uma rotação? É quando o avião sai de Lisboa, vai ao Pico e regressa à capital portuguesa, isto é, uma rotação Lisboa/Pico/Lisboa corresponde a dois voos — Lisboa/Pico e Pico/Lisboa.

Por outras palavras, o aumento de 12 voos corresponde apenas a 6 rotações Lisboa/Pico/Lisboa, sendo que 4 destas rotações adicionais terão lugar somente em setembro de 2019. Dito de outra forma, nos sete meses do Verão IATA haverá mais 6 ligações Lisboa/Pico/Lisboa — em média, um aumento de menos de uma ligação por mês — sendo que, excluindo setembro, no conjunto dos restantes seis meses em questão (abril, maio, junho, julho, agosto e outubro) pode-se afirmar que haverá um aumento de apenas mais 2 ligações Lisboa/Pico/Lisboa. Por este ponto de vista, parece mesmo muito poucochinho este reforço da SATA...

Concentrando agora as atenções nas percentagens apresentadas no comunicado supracitado, a SATA informou que vai aumentar a capacidade oferecida na rota Lisboa/Pico/Lisboa, no Verão IATA 2019, em 7,4%, isto porque estima um crescimento da procura nesta rota na ordem dos 5%. À primeira vista, as contas parecem bater certo para que a oferta consiga suportar a procura, mas levanta-se uma questão: como se chegou ao valor dos 5% de procura e estará este número de acordo com o historial do Pico?

Analisando os dados estatísticos relativos ao transporte aéreo de 2016, 2017 e 2018, considerando apenas a estação Verão IATA e focando a análise na rota Lisboa/Pico/Lisboa, obtém-se o seguinte:
  • No Verão IATA 2017 foram transportados 22.518 passageiros nesta rota, mais 1.758 do que na estação homóloga anterior, o que deu origem a um crescimento da procura na ordem dos 8,5%;
  • No Verão IATA 2018 foram transportados 27.170 passageiros nesta rota, mais 4.652 do que na estação homóloga anterior, o que deu origem a um crescimento da procura na ordem dos 20,7%.
Recapitulando, há dois anos a rota Lisboa/Pico/Lisboa cresceu 8,5% no Verão IATA, no ano passado cresceu ainda mais, nomeadamente 20,7%, mas as contas da SATA indicam que este ano vai crescer apenas 5%!

Se porventura alguém ainda está com dúvidas da atratividade crescente da ilha montanha e de como é possível haver crescimentos superiores a 20%, vale a pena citar algumas palavras da Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo, recentemente proferidas aquando da assinatura do contrato ARAAL para reabilitação da Casa dos Botes nas Lajes do Pico [áudio completo disponível neste link]:
Mas, e porque nos encontramos na ilha do Pico, não podemos deixar de enfocar que, nos primeiros 9 meses de 2018, se registou novamente um significativo aumento de procura turística.
Foi a ilha que mais cresceu em termos absolutos de dormidas, verificando-se um crescimento em todas as tipologias de alojamento a um ritmo de 21,1% (que compara com uma média Regional de 6%).
Os principais mercados de origem que contribuíram para este ritmo de crescimento turístico verificado foram o português (+15.9%); o Francês (+43.9%); o Alemão (+18.6%); e o Americano (+56.5%).
Não deixa de ser curioso como não só o Pico foi a ilha que mais cresceu em termos turísticos nos Açores, bem como todas as percentagens de crescimento são superiores a 5%! Dá que pensar (e muito) como é que a SATA chegou aos 5% de procura para a ilha montanha...

Contudo, o comunicado da SATA contém uma informação intrigante, isto atendendo ao facto de que o tema era o reforço das ligações entre Lisboa e o Pico. Mais concretamente, a SATA afirma que "a oferta da Azores Airlines é complementada com a da SATA Air Açores cuja operação no próximo verão será incrementada no número de frequências e de lugares oferecidos". Ou seja, a SATA deixa subentendido que a oferta proposta na rota Lisboa/Pico/Lisboa é insuficiente, pois terá de a complementar com voos interilhas!

Em suma, no verão de 2019 existirá um pequenino reforço de voos de Lisboa para o Pico, uma ilha que cresce a olhos vistos de forma tão impressionante quanto a grandiosidade da sua montanha; talvez agora se perceba um pouco as dificuldades porque passa a companhia aérea regional, isto porque as contas à moda da SATA, sobretudo no que concerne ao Pico, claramente não batem certo com a realidade!

Haja saúde!

Post scriptum: Este texto foi igualmente publicado na edição n.º 41.774 do 'Diário dos Açores', de 19 de janeiro de 2019.

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