quarta-feira, 11 de julho de 2018

Os vinhos do Pico e o glifosato


Recentemente foi publicado um artigo de âmbito nacional, mais concretamente no jornal 'Público', sobre "Os vinhos do Pico e o perigo do glifosato". No texto em questão é abordado um eventual uso excessivo de herbicidas na ilha montanha, o que, naturalmente, é algo que importa refletir.

Contudo, o que muito provavelmente não teve equivalente número de leitores (nem tanto impacto a nível nacional) foram umas notas de um produtor de vinho no Pico a explicar a sua visão sobre este assunto [texto na íntegra em anexo]: em suma, este produtor refere que os serviços públicos e os produtores "têm trabalhado em conjunto com vista a solucionar o problema da utilização excessiva dos glifosatos. E têm-no feito com grande sucesso. (...) Em resumo, os glifosatos foram um problema."

Importa salientar que todas as opiniões são válidas e merecem respeito; no entanto, e devido aos diferentes meios de comunicação social utilizados, alguns só tiveram acesso à informação de um dos lados, o que pode levar a uma generalização que talvez não corresponde à realidade atual. Assim, mais do que apontar aquilo que (eventualmente) não está bem, vale a pena divulgar algo que enaltece o muito trabalho já feito para garantir que o vinho do Pico continua a ser um produto de excelência!

Haja saúde!

Post scriptum: Adicionado outro texto explicativo sobre este assunto, da autoria de outro produtor de vinhos do Pico, bem como o direito de resposta ao artigo original, assinado por inúmeros produtores e entidades relacionadas com o vinho do Pico. Entretanto, o autor do artigo original escreveu um novo texto sobre este mesmo assunto, intitulado "Ainda o Pico e o problema dos herbicidas".



O Pico e os glifosatos — José Eduardo Rocha

Li com muita atenção o artigo sobre o abuso do glifosato nas vinhas do Pico. Considero o autor uma pessoa verdadeiramente interessada na divulgação dos nossos vinhos e, sobretudo, bem intencionado no que à verdade diz respeito.

Assim sendo, creio que as minhas notas serão bem recebidas.

Enquanto pequeno produtor de vinho e cuidador de currais de vinha, senti na pele a crítica e, num primeiro impacto, um sentimento de culpa no que diz respeito à minha contribuição para a degradação da saúde pública.

Foi mera reacção a palavras duras. Resposta emocional a acusações gravíssimas.
A verdade, no entanto, é bem diferente. Tenho a meu cargo 14 hectares de “património da humanidade” (terreno em currais), dos quais cultivo, por enquanto, apenas 3.

A realidade é diferente do retratado no artigo porque desde há, pelo menos, 5 anos que o glifosato não entra na minha propriedade. Fi-lo por opção. Utilizo apenas produtos que sejam “mais amigos do ambiente”, apesar do valor acrescido que pago por isso.

Neste momento poderia abandonar a discussão com o sentimento do dever cumprido e com a consciência tranquila. No entanto, este esclarecimento não é suficiente. Não se trata apenas da minha vinha mas sim das “vinhas do Pico” e do vinho único que aqui produzimos.

Tenho, portanto, que levar mais longe a minha explicação.

Desde há uns anos que a CVR, os Serviços Agrícolas e os produtores têm trabalhado em conjunto com vista a solucionar o problema da utilização excessiva dos glifosatos. E têm-no feito com grande sucesso. Começou-se com campanhas de sensibilização à população em geral para, numa segunda fase, organizar ações de formação dirigidas aos agricultores. Aí se aprende os perigos dos diferentes produtos aplicáveis na agricultura em geral e na vinha em particular. Aprende-se a cuidar e a gostar do ambiente e do património. Aprende-se, em síntese, a cuidar do que é nosso, de nós e, sobretudo, dos que depois virão.

São, neste momento, dois mil “aplicadores” já formados. Todos voluntários!

Como medida complementar, porque há sempre alguma “ovelha negra” (reconheço que existem), os produtos químicos de utilização na agricultura só são acessíveis a quem é certificado. Os produtos vendidos são inventariados e, como se não bastasse, existe um “caderno de campo” onde os produtos utilizados são descritos e relacionados com as áreas de aplicação.

Em resumo, os glifosatos foram um problema.

Os glifosatos, neste momento são uma triste recordação de um agricultura arcaica regida pelo “quanto mais melhor”.

Na actualidade, à excepção de alguns “patos bravos” que aterraram no Pico na busca do subsídio fácil e de um ou outro pequeno produtor mais ignorante, os glifosatos são um “não problema”.

É verdade que vemos muitas pessoas com “mochilas” às costas. Isso é irrelevante. O que interessa é o que vai lá dentro. Na maioria dos casos, estou certo, não são glifosatos.

Alguns são só turistas à procura do melhor lugar para acampar.



“O Pedro Garcias e as Fake News” — António Maçanita

Caro Pedro,

Muito me surpreende este seu artigo em que afirma que se aplica muito glifosato nos Açores, diz ainda o Pedro Garcias que nas vinhas do Pico se aplica muito, de tal forma que são as “vinhas mais químicas no país”. Diz quem? diz o Pedro, mas já lá vamos.

O seu título “Os vinhos do Pico e o perigo do glifusato”, associa o vinho do Pico a um dos herbicidas mais tóxicos se conhece no planeta, ora não só isto é muito grave, como é uma dupla falsidade.

Eu sei que a culpa não é sua Pedro, isto de ser cronista, não deve tarefa fácil, ter que escrever um artigo todas as semanas, nesta azáfama da vida, não dá tempo para um bocadinho de pesquisa. Mas nós ajudamos.

O Pedro dá primeiro a entender que se usa muito glifosato nas vinhas do Pico, segundo ao escrever “os vinhos do Pico” e não as “vinhas do Pico”, não de forma inocente, transmite ao consumidor que vinhos do Pico podem ter glifosato e ter implicações para saúde. Ambas estas afirmações são taxativamente mentira e as suas intenções desconhecendo-as, não podem ser nobres.

Ora quanto ao primeiro ponto, as vinhas do Pico são provavelmente das que menos glifosato usam no território Nacional por razões muito simples que estou seguro que o até Pedro vai entender.

Eu sei que Pedro foi ao Pico viu um senhor de pulverizador manual às costas de 15 L, um ser estranho, de pele rugosa, queimada pelo sol a aplicar produtos na vinha. E isto para quem é do continente assusta, pode dizer-se mesmo que traumatiza, pois não estamos mais habituados a isto. No continente é tudo com tratores com depósitos de 1000 L ou atrelados 2000 L a pulverizar com campânulas à grande. Não é assim sorrateiramente pela calada da tarde. O Pedro topou logo o malandro que saiu de um dia trabalho para ir tratar da vinha ao fim da tarde, estava viciado no glifosato. Eu sei que traumatiza, mas depois passa. Vamos agora à explicação.

Ora Pedro, o glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo e pode dizer-se com segurança que o mais utilizado na vinha em Portugal. É a regra para o controlo de infestantes. Exceção feita e de felicitar a quem se converteu aos regimes biológico, biodinâmico ou outros produtores o substituíram por meios mecânicos como entre-cepas, trabalho de enxada, ou outros herbicidas de contacto. Mas podemos dizer com segurança que esses são a exceção.

A vinha do Pico tem, no entanto, a particularidade de que as vinhas são/estão deitadas sobre o chão, para se protegerem do vento, cobrindo o solo. Ora Pedro, não sei se sabia mas os herbicidas são aplicados no chão por isso durante praticamente todo o ano não se pode aplicar glifosato. Porquê, pergunta. Porque o glifosato é um herbicida sistémico. Sim sistémico, não se assuste com a palavra, que eu explico. É um herbicida que se toca em alguma parte vegetal da planta ataca todo o sistema matando a planta.

Agora tente lá explicar aos seus leitores como é que se aplica glifosato nas vinhas do Pico que cobrem todo o chão sem as matar? Não sabe? Mas esteve lá em Junho e viu.

Eu explico. Não se aplica. Não se pode, porque mata a planta.

Mas sei o que está a pensar Pedro. Então e no inverno que não há folhas? Ora Pedro no Inverno enquanto a maioria de Portugal continental está a aplicar glifosato, eu inclusive em algumas das nossas vinhas do continente. No Pico nós não aplicamos porque é desaconselhado. Não deve saber, mas nos Açores não faz frio suficiente para a planta fazer uma verdadeira dormência, o que faz a aplicação ter um risco muito elevado. Por esta razão e outras razões, a maioria dos produtores de vinho, como nós Azores Wine Company, Fortunato Garcia e Curral Atlantis abandonaram o glifosato.

Quanto aos Açores como um todo que também acusa de ser viciado no Glifosato, dou-lhe nota que a maioria dos estudos de glifosato ligados à saúde estão relacionados com a sua utilização intensa em plantações de milho, que foram geneticamente modificados para resistir a este composto. É curiosamente os Açores uma das regiões do mundo onde foi proibida a entrada dos milhos transgénicos e bloqueando utilização maciça de glifosato.

Pedro, depois disto tenho só a pedir se retrate publicamente e por favor sem as cambalhotas do costume. Já estou a adivinhar que vai dizer não era bem isso que queria dizer... mas foi o que escreveu.

Obrigado e cumprimentos

António Maçanita



"OS VINHOS DO PICO E O PERIGO DO GLIFOSATO” - DIREITO DE RESPOSTA

Ao abrigo dos artigos 24º, 25º e 26º da Lei de Imprensa os abaixo-assinados solicitaram à Editora do Suplemento Fugas do Jornal Público a publicação do seguinte texto ao abrigo do Direito de Resposta e de Retificação, na sequência do artigo de opinião assinado por Pedro Garcias, no suplemento “Fugas”, do jornal Público no dia 07/07/2018 com o título: “Os vinhos do Pico e o perigo do glifosato”.

DIREITO DE RESPOSTA PARA PUBLICAÇÃO:

"No seguimento do artigo intitulado “Os Vinhos do Pico e o Perigo do Glifosato” publicado no suplemento Fugas, de 7 de julho de 2018, da autoria de Pedro Garcias, vimos por este meio responder, mostrar a nossa indignação e exigir a reposição da verdade.

No vosso artigo, o título associa o “vinho do Pico” ao “Perigo do glifosato”. Não existe qualquer investigação científica que estabeleça uma relação entre a utilização de glifosato e a contaminação do vinho. É falso o alarme despoletado pelo título do artigo e é grave enganar o consumidor transmitindo a ideia, errada, de que o consumo do “vinho do Pico” poderá, de alguma forma, ser prejudicial à saúde.

A ilha do Pico tem o maior parque natural dos Açores e 33% da sua área é protegida (156 km2). Na zona marítima, 79 km2 são de proteção marinha. A Paisagem da Cultura da Vinha do Pico é classificada pela UNESCO como Património da Humanidade. Estes factos são, por si só, determinantes na relação política e cultural que a ilha do Pico mantém com todas as temáticas relativas ao ambiente.

Relativamente ao vinho e à vinha, que ocupa uma pequena parcela do território, o Pico é uma Denominação de Origem controlada. O que significa que todos os vinhos aqui produzidos são avaliados e analisados para posterior certificação através de uma entidade técnica e cientificamente competente. Numa paisagem única em que as vinhas são plantadas nas fendas das rochas junto ao mar, as vinhas estão todas sob o regime de “proteção integrada de acordo a Lei n.º 26/2013 de 11 de abril. As Vinhas do Pico, como referimos, são classificadas como Património da Humanidade desde 2004. É uma das (apenas) 14 regiões do mundo com esta chancela da UNESCO.

Os mais de 300 viticultores representam um total de quase 1.000 hectares de vinhas (10 km2), dos quais cerca de 700 hectares foram recuperados nos últimos 4 anos, num esforço de recuperação de uma cultura e uma indústria com uma História de mais de 500 anos. As vinhas do Pico não são mecanizadas. Todo o trabalho é manual. As vinhas do Pico são, por esta razão, das que menos emissões poluentes fazem no planeta. São, também, umas das vinhas que, no mundo, requerem mais mão-de-obra, contribuindo para a fixação das populações rurais e distribuindo riqueza.

A associação feita pelo artigo entre o Vinho do Pico e o Perigo do Glifosato configura, para além de uma falsidade, uma difamação, pois associa, de forma exclusiva, aquele produto aos vinhos do Pico. Damos nota que, apesar do artigo referir que também existe glifosato noutras vinhas em território nacional, nunca faz associação ao vinho, nem nomeia outras regiões.

O dano causado pela associação exclusiva de “Vinho do Pico” a “Perigo do Glifosato”, é incomensurável. A difamação contida nesta associação prejudica, de forma irreparável, toda a indústria dos vinhos do Pico e mancha a reputação de toda uma Região. A afirmação pode configurar, ainda, uma “viciação da concorrência”. Por estes motivos, impõe-se a reposição imediata e cabal da verdade, esclarecendo os leitores sobre a realidade dos factos.

Existe perigo de saúde de Glifosato nos vinhos do Pico? Os vinhos do Pico têm mais perigo para a saúde do que outras regiões?

A resposta é, taxativamente, NÃO a ambas as questões! As vinhas do Pico estão todas sob o regime de “proteção integrada” e os vinhos do Pico são todos analisados e certificados pela Comissão Vitivinícola Regional dos Açores, não havendo qualquer risco para a saúde associado a glifosato ou a qualquer outro herbicida.

Os herbicidas são utilizados de forma consciente e controlada. Consciente porque os aplicadores frequentaram ações de formação específicas onde aprenderam os perigos que os herbicidas implicam para a saúde pública e a forma correta de os dosear e aplicar. Controlada porque a venda de produtos químicos está vedada ao público em geral e porque os agricultores têm de manter registo dos produtos utilizados.

Afirma ainda o artigo que “Não deve haver vinhas mais químicas que as do Pico”. Entende-se que esta grave acusação é falsa e configura de novo uma difamação e “viciação da concorrência”.

Note-se em primeiro lugar que as vinhas do Pico têm a particularidade de serem rasteiras, para proteção do vento, cobrindo o solo. Sabendo que todos os herbicidas são aplicados no chão, percebemos que não se pode aplicar glifosato praticamente todo o ano. Poder-se-ia eventualmente no Inverno quando não há folhas. Ora, no Inverno enquanto a maioria de Portugal continental está a aplicar glifosato, no Pico não se aplica porque é desaconselhado, porque não faz frio suficiente para a planta fazer uma verdadeira dormência (seria um risco muito elevado para a sobrevivência das plantas). Por esta razão, entre outras, a maioria dos produtores de vinho abandonaram o glifosato.

Acrescentamos que, nas vinhas do Pico, a impossibilidade de utilização de tratores obriga a que qualquer aplicação de produtos seja manual, de pulverizador às costas. Esta é uma aplicação muito mais precisa, apenas feita sobre o que se quer tratar e não sobre a totalidade do terreno, ao contrário do que acontece na generalidade das vinhas em território nacional, que são mecanizadas.

O artigo não refere qualquer dado comparativo entre países ou entre regiões portuguesas para sustentar as suas conclusões. Damos nota aqui de um dado comparativo importante: numa vinha em espaldar, que é a norma em Portugal continental, um trator consegue aplicar num dia herbicidas entre 7 a 10 hectares de vinha. No Pico, como tudo tem que ser aplicado por “alguém com um pulverizador às costas”, um homem consegue tratar apenas 0,3 hectares de vinha por dia, isto é, um trator aplica cerca de 23 a 33 vezes mais do que o homem do Pico.

Pergunta-se então se se aplica mais glifosato nas vinhas do Pico que noutras regiões de Portugal?

Não! Aplica-se menos glifosato nas vinhas do Pico do que na generalidade das vinhas em Portugal. Em terceiro lugar, o artigo afirma que “Os Picarotos parecem viciados em herbicidas”. Neste caso, configura efetivamente uma opinião, mas não deixamos de registar que procura apenas denegrir de forma generalizada a população de uma ilha. Ao contrário do que dá a entender a mensagem do artigo, o mais recente estudo da Universidade dos Açores, comprova que os Açores, de entre as ilhas da Macaronésia, são a Região que tem a menor utilização de produtos fitofarmacêuticos na agricultura.

O artigo refere ainda, em tom de conclusão, que “Haverá sempre quem beba sem se preocupar em saber o percurso do vinho até chegar ao copo, mas quem se dispõe a pagar um preço alto por uma garrafa de vinho — e os vinhos do Pico são obrigatoriamente caros — quer saber um pouco mais sobre o que vai beber. Esse consumidor não está apenas a comprar vinho, está também a comprar uma experiência, um bem cultural, um testemunho de uma paisagem e de um povo. Regar tudo isto com glifosato não é uma boa ideia.”

O artigo conclui, portanto, que os vinhos do Pico, apesar da sua cultura e valor, são regados de herbicidas, colando de novo o vinho do Pico ao glifosato. São afirmações graves, infundadas que difamam toda uma região e que provocam danos incalculáveis a toda a indústria de vinhos dos Açores.

A utilização dos herbicidas em geral e do glifosato em particular só é nociva para a saúde humana quando se verifica a sua acumulação nos solos e nos lençóis de água em valores superiores aos parâmetros considerados aceitáveis e determinados pelas instituições científicas e legislativas. Segundo os últimos estudos científicos realizados, os solos dos Açores apresentam índices de contaminação mínimos quando comparados com a regulamentação, sendo inferiores a outras regiões. De acordo com os relatórios da ERSARA, a água fornecida à população dos Açores é de boa qualidade e, apesar das centenas de análise efetuadas anualmente, nunca o perigo de contaminação por herbicidas foi, sequer, referida. Acresce que todas as análises efetuadas às zonas balneares dos Açores indicam que a qualidade da água é excelente.

É caso para perguntar onde se meteram os glifosatos?

Concluímos afirmando, com orgulho, que as ilhas dos Açores são, realmente, certificadas pela Natureza!

Os Abaixo-Assinados:

CVR AÇORES / ADEGA A BURACA / AZORES WINE COMPANY / CANCELA DO PORCO/ COOPERATIVA VITIVINÍCOLA DA ILHA DO PICO / CURRAL ATLANTIS / VINHOS CZAR"

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