segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A impressionante capacidade de alojamento do Pico


"Foi na ilha do Pico, nos Açores, em Portugal" — com certeza que foi assim que inúmeros turistas, nas suas respetivas línguas, se referiram ao local onde passaram alguns dias de férias, sobretudo no verão. A verdade é que na ilha montanha se tem notado claramente, nos últimos tempos, a presença de cada vez mais turistas, seja na rua ou nos restaurantes, bem como nos navios de passageiros e nos aviões que servem o Pico. Isto leva muito gente a se questionar, incluindo os locais, onde é que ficam alojados tantos turistas? Além disso, o dilema é ainda maior quando se constata que na ilha montanha existe (na conceção tradicional da palavra) apenas um hotel...

De forma a desvendar este mistério, analise-se alguns dados estatísticos providenciados pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA) e pela Direção Regional do Turismo, nomeadamente no que concerne à capacidade de alojamento — número máximo de indivíduos que os estabelecimentos podem alojar num determinado momento ou período e que na hotelaria é determinado através do número de camas, considerando como duas as camas de casal; esta capacidade é a existente ou disponível, visto que não se consideram os estabelecimentos encerrados.

Assim, somando as camas disponíveis na Hotelaria Tradicional, no Turismo em Espaço Rural e no Alojamento Local, é possível ficar a conhecer qual a capacidade de alojamento total em cada ilha açoriana [ver gráfico]. E eis que surge uma primeira revelação surpreendente: o Pico tem 11,4% da capacidade de alojamento do total regional, o que o coloca no terceiro lugar do pódio a nível Açores, apenas superado pela Terceira (16,8%) e por São Miguel (52,6%).


Outras curiosidades podem ser extraídas a partir destes dados estatísticos. Por exemplo, quem associa o número de hotéis à capacidade de alojamento de uma ilha está, de uma forma inconsciente, a ser induzido em erro no caso do Pico — elucidando um pouco mais, se for somado o número de camas da Hotelaria Tradicional das ilhas de Santa Maria e do Faial, obtém-se o dobro das camas da Hotelaria Tradicional da ilha montanha; contudo, a capacidade de alojamento total do Pico é maior do que a soma da capacidade de alojamento total de Santa Maria e do Faial! Aliás, todas as camas disponíveis no Pico equivalem àquelas disponíveis no conjunto Faial, Flores e Corvo, bem como são quase tantas quantas as disponíveis em São Jorge e no Faial quando somados, ou seja, é na ilha montanha que se encontra quase metade (47%) da capacidade de alojamento do "Triângulo"!

Então, qual o segredo para esta impressionante capacidade de alojamento do Pico? A resposta é dada pelo Alojamento Local, que na ilha montanha tem uma expressividade ímpar a nível regional: mais de dois terços das camas disponíveis no Pico (71%) provêm do Alojamento Local! Este é um valor sem qualquer paralelo nos Açores, pois apesar de outras duas ilhas também terem mais de metade das camas disponíveis associadas ao Alojamento Local, nomeadamente Flores (63%) e São Jorge (58%), estas não atingem o patamar da ilha montanha.

Ainda sobre o Alojamento Local, vale a pena salientar que este tipo de unidades está associado à capacidade empreendedora de famílias e pequenos empresários. Por esta razão, seria de esperar que houvesse algum tipo de correlação entre a população de cada ilha e as camas disponíveis no respetivo Alojamento Local. A verdade é que, mais uma vez, os números do Pico são surpreendentes: em termos absolutos, a capacidade do Alojamento Local do Pico é igual à da Terceira, ilha esta que, segundo dados da PORDATA, tem quatro vezes mais população do que a ilha montanha!

Para melhor entender o fantástico espírito empreendedor dos picarotos, considere-se a seguinte taxa de esforço: o quociente entre capacidade de alojamento total e a população residente, estatística esta que permite perceber, indiretamente, quantos bens e serviços (água, eletricidade, gás, tratamento do lixo, combustíveis, restaurantes, etc.) têm de existir a mais numa determinada ilha para servir pessoas que não são residentes [ver gráfico]. E eis que surge mais uma surpreendente revelação: a ilha do Pico consegue suportar turistas que equivalem a quase um quinto da respetiva população, taxa de esforço esta (de 19%) que é a mais elevada dos Açores!


Os números apresentados anteriormente comprovam como a capacidade de alojamento do Pico é impressionante no contexto regional, sendo que tal se deve sobretudo ao espírito empreendedor das suas gentes. Os picarotos estão a corresponder à elevadíssima procura que a ilha montanha tem registado ao longo dos últimos anos, tal como têm demonstrado, por exemplo, os recordes sucessivos no transporte aéreo de passageiros e os respetivos voos que esgotam recorrentemente — com esta análise percebe-se o porquê de esgotarem, pois o Pico pode ser a terceira ilha com maior capacidade de absorção de turistas nos Açores, mas em termos de ligações aéreas está mais abaixo na tabela...

Resumindo, os números não enganam: o Pico está na moda!

Haja saúde!

Post scriptum: Este texto foi igualmente publicado na edição n.º 41.713 do 'Diário dos Açores', de 7 de novembro de 2018.

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