sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carta aberta ao coordenador do suplemento ‘Correio Económico’ do jornal ‘Correio dos Açores’

Exmo. Senhor Luís Guilherme Pacheco,

Li com muita atenção a sua nota de abertura do suplemento ‘Correio Económico’, edição n.º 250 de 30 de janeiro de 2015, intitulada “Discutir princípios e não apenas distâncias”, a qual aborda o descontentamento dos picarotos face a um “Barómetro” sobre o Secretário Regional da Saúde, publicado numa edição anterior do referido suplemento, e sobre esta nota de abertura gostava de tecer algumas considerações.

Em primeiro lugar, registo que não teve a amabilidade de responder a um e-mail meu sobre esse mesmo “Barómetro”, onde eu solicitava uma opinião sua e sincera sobre uma Carta aberta ao Senhor Secretário Regional da Saúde sobre o serviço de saúde na ilha do Pico escrita por mim, onde poderá perceber melhor não só o que se está passando com o serviço de saúde da ilha do Pico, mas também todas as distâncias de todas as freguesias dos Açores ao respetivo atendimento urgente (em anexo segue novamente cópia desta carta aberta, sendo que também a pode ler online no blog caisdopico.blogspot.pt).

Em segundo lugar, na sua nota de abertura refere que lhe chegou a notícia de comentários inqualificáveis em termos pessoais sobre esse “Barómetro”, os quais eu desaprovo, mas recordo que anteriormente, nesse mesmo “Barómetro”, os cidadãos da ilha do Pico foram acusados de serem “egoístas”, quando o que apenas lutam é pela igualdade, o que deixará de existir com a reforma em curso, através de uma análise assente em factos que a seguir enumerarei. Aliás, concordando inteiramente com o título da sua nota de abertura, os picarotos apenas desejam que se aplique, antes de qualquer outra coisa, o artigo 13.º da Constituição Portuguesa - Princípio da igualdade (“1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”).

Referiu na sua nota de abertura que fez uma “citação figurativa” no “Barómetro” quando foi escrito que a “população não quer percorrer uma distância de pouco mais de 15 minutos para ir à urgência do Centro de Saúde da Madalena”, pois reconhece que sabia que demora 30 minutos ou mais das Lajes do Pico à Madalena. Pois bem, julgo de voltou a recorrer a citações figurativas na sua nota de abertura:

- “(…) o Secretário Regional da Saúde pretende com a medida estender o Serviço de Atendimento Permanente nos Concelhos das Lajes do Pico e de S. Roque até ás 20h, e implementar um Serviço de Urgência no Centro de Saúde da Madalena 24 horas por dia, mais moderno e bem apetrechado, com médico internista, pessoal de enfermagem e técnicos de diagnóstico.

Se consultar o Plano de Ação para a Reestruturação do Serviço Regional de Saúde, verificará que o Serviço de Atendimento Permanente será reduzido e não estendido nos Centros de Saúde das Lajes e de São Roque do Pico, porque atualmente funciona 24 sobre 24 horas (sem presença física de médicos no horário noturno), dispõe de pessoal de enfermagem 24 horas por dia e também de técnicos de diagnóstico. Mais ainda, algum do material que apetrecha o novo Centro de Saúde da Madalena provém não só do antigo centro de saúde mas também dos outros centros de saúde que terão valências reduzidas no futuro.

- “A medida proposta para a ilha do Pico não é diferente daquela que está a ser implementada para o concelho do Nordeste, que no período noturno quando tem uma situação de urgência tem que vir a Ponta Delgada, e passa no Centro de Saúde da Ribeira Grande, que também não tem serviço de urgência entre as zero horas e as 8 da manhã.

A medida é diferente, e bastante, sobretudo em dois aspetos. Primeiro, a medida prevê que os Centros de Saúde das Lajes e de São Roque do Pico encerrem o atendimento urgente às 20h, enquanto os centros de saúde da ilha de São Miguel que referiu encerram apenas às 24h. Também aqui se levanta esta simples questão: porque é que se pretende encerrar o atendimento urgente nos centros de saúde das Lajes e de São Roque do Pico às 20h, quando estes centros atenderam mais doentes nos serviços de urgência básica (9131 e 6925, respetivamente) do que o centro de saúde do Nordeste (4840), sendo que foi determinado que este último centro só encerraria esse serviço às 24h (dados extraídos das Estatísticas da Saúde 2013)?
Segundo, um paciente que tenha uma urgência em São Miguel sabe que, mesmo que tenha que se deslocar a Ponta Delgada, provavelmente não será evacuado. Como bem sabe, no Pico existem muitas evacuações e o atendimento quer nas Lajes quer em São Roque do Pico permite que se chame ou o barco ou o avião o mais rapidamente possível, poupando tempo e em alguns casos, nomeadamente os de evacuações aéreas, combustível das ambulâncias que também é pago por todos nós (pois por vezes fica mais perto chegar ao aeroporto).

- “Mais ainda, no maior concelho dos Açores, e o mais habitado, que é o de Ponta Delgada, existe uma freguesia, a dos Mosteiros, um dormitório da cidade, que em termos de tempo, é a que fica mais distante do Hospital de Ponta Delgada.

Acrescento que, na ilha mais alta dos Açores, e o ponto mais alto de Portugal, que é a ilha do Pico, existe uma freguesia, a da Madalena, que é a que fica mais perto do hospital mais próximo (10 km), o Hospital da Horta na ilha do Faial, e que mesmo assim se demora mais tempo a lá chegar do que dos Mosteiros a Ponta Delgada (30 km)…

Termino fazendo um apelo: de futuro apresente os factos de forma mais precisa e menos figurativa, de modo a transmitir a verdadeira situação pela qual os habitantes da ilha montanha estão a passar. Os picarotos não são figuras; são pessoas que têm o direito de lutar pelos mesmos direitos que qualquer outro açoriano também dispõe. Quem habita o Pico estará sempre disposto a acompanhar socialmente todas as mudanças, desde que a complementaridade formada por todas as partes cumpra o princípio da igualdade para todos e não o distanciamento entre os que pouco e cada vez menos têm e os que mais têm.

Haja saúde!

Ivo Sousa

Post scriptum: Esta carta aberta foi publicada no suplemento ‘Correio Económico’, edição n.º 251 de 6 de fevereiro de 2015, seguida de uma "Nota de Redacção". No último ponto desta "Nota de Redacção" foi dito que eu não fiz "uma única referência à função financeira do Serviço Regional de Saúde"; sobre este assunto, não só nesta carta aberta é referida uma hipotética poupança no combustível das ambulâncias e que é pago pelos contribuintes, mas também se for lida com atenção a Carta aberta ao Senhor Secretário Regional da Saúde sobre o serviço de saúde na ilha do Pico, à qual este texto faz referência, é possível ler o seguinte excerto:
"Excelentíssimo Senhor Secretário, provavelmente dir-me-á que muitas das alterações propostas têm como objetivo garantir a sustentabilidade do serviço regional de saúde. Eu não posso estar mais de acordo consigo nessa matéria: é necessário garantir hoje e sempre que os açorianos nunca ficarão privados de ter acesso aos cuidados de saúde. E sobre essa temática tenho uma sugestão para lhe dar: use e abuse da telemedicina!"
Nota ainda para um agradecimento ao amigo Rui Pedro Ávila, por ter ajudado a divulgar esta carta aberta através do seu espaço "Ponderando" no 'Jornal do Pico', edição n.º 563, de 13 de fevereiro de 2015.

Anexos:

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