Excelentíssimo Senhor Presidente do Governo
Regional dos Açores,
O meu nome é Ivo Sousa e sou o investigador
natural da ilha do Pico que recentemente lhe enviou uma
carta aberta sobre
distâncias na ilha do Pico. Espero que já tenha tido a oportunidade de ler
a referida carta pois, tendo por base o trabalho que aí apresentei, decidi
fazer um novo estudo sobre ligações marítimas no Triângulo.
As ilhas do Pico, São Jorge e Faial formam o
chamado Triângulo, expoente máximo da sensação de arquipélago na Região
Autónoma dos Açores: ilhas com paisagens e culturas diferentes mas que se
avistam entre si todos os dias e que são ligadas diariamente por via marítima. Aliás,
se as ligações marítimas são como pontes que contribuem para a coesão social,
económica e territorial da região (tal como referido no Plano Integrado dos
Transportes dos Açores –
PIT), é no Triângulo
que o transporte marítimo de passageiros atinge o seu auge: segundo dados do
PIT, em 2013 o número
de passageiros por porto de origem no Triângulo representou 88% (409.600) do
total dos Açores (463.434).
Como é do seu conhecimento por certo, a grande
maioria do transporte marítimo de passageiros no Triângulo é efectuada pela
Transmaçor. Esta empresa iniciou ontem (dia 1 de Outubro) o
horário de Inverno, o qual prevê, a
partir de Novembro, uma alteração nas ligações Pico - São Jorge face ao horário
anterior que, do meu ponto de vista, não beneficia nem os picarotos nem os
jorgenses. Para justificar a minha perspectiva, recorri de novo aos números
para fazer um estudo sobre o tempo de viagem entre o Pico e São Jorge. Decidi
partilhar este estudo consigo pois sua Excelência lidera o Governo Regional dos
Açores, o qual detém a maioria do capital social da Transmaçor (
88,37%), tendo portanto influência directa nas decisões tomadas por esta
empresa.
Segundo o
horário em vigor
da Linha Verde da Transmaçor, a partir do mês de Novembro prevê-se que, às Quartas
e Quintas-feiras, as viagens da Linha Verde (que liga Faial – Pico – São Jorge)
passem pelo porto da Madalena, ao invés do porto de São Roque do Pico. Para
além do facto de quem fica nauseado com o balançar de barcos preferir que a
viagem de mar seja o mais curta possível, outra desvantagem que surge logo à
partida é que, pelo facto de não ser utilizado o mesmo porto no Pico durante
toda a semana, a logística dos habitantes, das empresas e dos turistas (tanto
no Pico como em São Jorge) deixa de ter uma referência fixa ao longo da semana.
Por exemplo:
- Se para uns dias o planeamento tem que ser feito para um porto, caso
haja uma alteração do dia de viagem (devido ao mau tempo ou a outro factor)
pode significar ter de refazer todo o plano devido à alteração de porto.
- Um habitante da ilha montanha que decida ir na Quinta-feira a São
Jorge e regressar na Sexta-feira pode deixar a sua viatura na Madalena na ida,
mas quando ele regressar estará a mais de 20 km do veículo.
Também do ponto de vista de tempo gasto em
viagem, julgo que esta decisão não beneficia nem os habitantes do Pico nem os
de São Jorge. Passo então a demonstrar esta afirmação com base nos dados da
tabela anexa compilada por mim, onde estão expressos não só alguns dos dados
que apresentei no
estudo anterior
que partilhei consigo (habitantes de cada uma das freguesia da ilha do Pico – dados dos
Censos 2011 – e distâncias de
condução com base no site
pt.distanciacidades.com) mas também o
tempo total de viagem entre cada uma das freguesias da ilha do Pico e a Vila de
Velas, em São Jorge. Este tempo de viagem resulta do somatório do tempo da
viagem terrestre (assumida ser feita a 50 km/h, de forma a não infringir o
artigo 27.º do
Código da Estrada) mais o tempo da
viagem de barco (1h20 se a partida for no porto da Madalena e 0h50 se a partida
for no porto de São Roque do Pico – dados da
Transmaçor).
A primeira conclusão muito interessante que se
pode extrair da tabela é que
para todas as freguesias da ilha do Pico é
mais rápido chegar à vila de Velas via o porto de São Roque do Pico do que via
o porto da Madalena. Fazendo as médias ponderadas dos tempos de viagem (ou
seja, somar os produtos entre os tempos de viagem e a população de cada
freguesia e dividir pelo número total de habitantes), verifica-se que viajar de
uma freguesia do Pico para São Jorge via o porto da Madalena demora, em média,
mais 31 minutos do que via o porto de São Roque do Pico.
Outra estatística interessante de analisar é o
tempo máximo que um habitante da ilha do Pico (ou uma mercadoria) necessita
para chegar a São Jorge. Se for via o porto da Madalena, o tempo de viagem
total pode chegar a 2h21, enquanto se for via o porto de São Roque do Pico pode
chegar a 1h31, ou seja, menos 50 minutos.
Finalmente, analise-se a percentagem da
população do Pico que demora 1h30 ou mais para chegar à vila de Velas: se a
viagem se realizar via o porto da Madalena, 72% das pessoas demoram 1h30 ou
mais, enquanto apenas 5% das pessoas (e das mercadorias) demoram essa quantidade
de tempo se realizarem a viagem via o porto de São Roque do Pico.
Espero
que este estudo lhe seja útil para clarificar como funciona a dinâmica das
ligações marítimas no Triângulo, nomeadamente entre a ilha do Pico e a ilha de
São Jorge, e que seja tido em conta nas decisões que sua Excelência e o seu
elenco governativo têm que tomar. Sei que estas decisões são bastante complexas
e que muitas vezes têm de ter em consideração a poupança de fundos, por isso
nada melhor do que seguir a máxima popular “tempo é dinheiro”!
(ver também:
Haja saúde!
Post scriptum: Esta carta aberta, à semelhança da anterior, foi enviada para os correios electrónicos do Governo Regional dos Açores e da Presidência do Governo Regional, bem como via formulário electrónico de contacto do Governo Regional, sendo estes os contactos que estão disponíveis na
página oficial do Governo Regional dos Açores. Adicionalmente, esta carta aberta foi publicada na edição n.º 545 do 'Jornal do Pico', de 10 de Outubro.