segunda-feira, 11 de maio de 2015

Carta aberta aos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Transporte Marítimo de Passageiros e Infraestruturas Portuárias sobre as ligações marítimas entre a ilhas do Pico e de São Jorge

Excelentíssimos Senhores Deputados,

O meu nome é Ivo Sousa, tenho 30 anos e sou investigador no Instituto de Telecomunicações, polo do Instituto Superior Técnico - Universidade de Lisboa. Mas quem se aproxima do meu posto de trabalho nesta universidade depara-se com um poster de uma fotografia da montanha do Pico coberta de neve, guias turísticos dos Açores, um galhardete da vila de São Roque do Pico e, como tela de fundo do meu computador de trabalho, uma fotografia do ponto mais alto de Portugal: o piquinho. Por outras palavras, descobrem logo que sou, com muito orgulho, natural da ilha do Pico.

Apesar de estar longe da ilha montanha, tento ao máximo acompanhar o que lá se passa e, dentro da minhas possibilidades, tento contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes da minha terra natal. Por esse motivo, no dia 2 de outubro do ano passado escrevi uma carta aberta ao Presidente do Governo Regional dos Açores sobre ligações marítimas no Triângulo, a qual foi enviada por via eletrónica para o contacto de e-mail do Presidente do Governo Regional disponível no respectivo site oficial, foi divulgada publicamente no blogCais do Pico” (caisdopico.blogspot.pt), de que sou autor, e foi publicada na edição 545 do Jornal do Pico, de 10 de outubro. Para além de querer dar a conhecer a vossas excelências essa minha carta, venho por este meio acrescentar novas perspetivas sobre as ligações marítimas entre as ilha do Pico e de São Jorge, o que julgo que se enquadra no âmbito da comissão a que pertencem.

No meu escrito anterior, dirigido ao Presidente do Governo Regional e sobre o qual ainda não obtive qualquer resposta, apresentei um estudo sobre ligações marítimas nas ilhas do Triângulo, nomeadamente sobre o tempo total de viagem entre cada uma das freguesias da ilha do Pico e a vila de Velas, em São Jorge. Este estudo foi motivado pelo facto da Transmaçor, empresa que como sabem efetua a grande maioria do transporte marítimo de passageiros no Triângulo, ter introduzido uma alteração nas ligações Pico – São Jorge que veio modificar o que tinha sido prática comum nos últimos anos e que, do meu ponto de vista, não beneficia nem os picarotos nem os jorgenses. A alteração a que me refiro é que algumas viagens da Linha Verde (que liga Faial – Pico – São Jorge) fazem escala no porto da Madalena, ao invés do porto de São Roque do Pico. Também foi implementado no verão passado a escala no porto da Madalena por parte dos velhinhos Cruzeiro do Canal e Cruzeiro das Ilhas, ao invés do porto de São Roque do Pico, quando um dos novos navios (por norma o Gilberto Mariano) se desloca à ilha Terceira (Linha Lilás da Transmaçor, operada às terças-feiras e sábados na época alta). Passo então a justificar porque entendo que estas soluções prejudicam os passageiros que viajam entre as ilhas do Pico e de São Jorge.

Considerem o horário previsto da Linha Verde da Transmaçor para a semana de 21 a 28 de junho, o qual compilei nas tabelas seguintes (clicando nas tabelas permite aumentar o seu tamanho, facilitando a leitura).



Como se pode observar, o horário é bastante confuso. E ainda mais complicado se torna quando alguém quer explicar a um turista como ir do Pico a São Jorge e vice-versa, pois de dia para dia muda a hora de embarque ou o navio ou o porto utilizado no Pico. Talvez por todas estas razões este horário tenha sido carinhosamente batizado pelos residentes como “horror-ário”. Analise-se agora o que se passa em cada dia desta semana em particular.

Aos domingos tem-se o que eu considero ser o horário de referência entre as ilhas do Pico e de São Jorge: a viagem de barco é a mais curta possível e é maximizada a permanência nestas ilhas para quem vai e vem no mesmo dia.

Na segunda e sexta-feira observam-se excelentes exemplos da aplicação do Plano Integrado dos Transportes dos Açores (PIT): para evitar duplicação de viagens, é utilizado o navio Express Santorini na ligação Pico – São Jorge de manhã, mas um qualquer passageiro até nem precisa de saber esta informação antes de viajar; basta se deslocar a São Roque do Pico, tal como se fosse a hora de domingo, e consegue chegar à ilha de São Jorge. No sentido inverso e também de manhã, um passageiro já precisa saber que o barco sai mais cedo, portanto um pequeno ajuste no horário (atraso neste caso) permitiria que este ficasse semelhante ao horário de referência dos domingos, permitindo uma coerência de horário e fácil entendimento do mesmo.

Nas terças e sábados surgem então os primeiros grandes prejuízos para os passageiros, sobretudo para os jorgenses. Vejamos: se quem quer ir do Pico a São Jorge no mesmo dia segue o horário de referência de domingo, quem vai de São Jorge ao Pico demora o dobro de tempo em viagens de barco e permanece menos tempo na ilha montanha. Além disso, estes últimos passageiros utilizam o porto da Madalena, o que não só torna o horário mais confuso devido à utilização de outro porto, mas também não é benéfico, pois partindo de um qualquer lugar da ilha do Pico, é mais rápido chegar à vila de Velas via porto de São Roque do Pico do que via porto da Madalena, tal como justificado pelo estudo que apresentei na carta aberta em anexo.

Na quarta-feira o porto de São Roque do Pico nunca é utilizado, o que prejudica todos os passageiros em termos de tempo, não só pelas razões invocadas anteriormente mas também devido aos seguintes factos: para garantir um tempo de permanência na ilha de São Jorge igual ao horário de referencia de domingo, um passageiro do Pico que vá e venha no mesmo dia tem que sair mais cedo da sua ilha e regressar mais tarde; um passageiro que faça a viagem inversa passa menos tempo na ilha montanha e ainda demora mais tempo nas viagens de barco.

Finalmente, resta analisar o dia mais sui generis desta semana em estudo: a quinta-feira. Ora bem, existem algumas semelhanças com a quarta-feira, e consequentemente as mesmas desvantagens, mas para além disso agora a aplicação do PIT não é vantajosa: como é utilizado o navio Express Santorini à tarde no sentido São Jorge – Pico, ou seja, o porto de São Roque do Pico é escalado neste caso, e como todas as restantes viagens são via porto da Madalena, acontece que uma pessoa do Pico que queira ir e vir a São Jorge no mesmo dia não pode deixar a sua viatura no porto de embarque porque quando desembarcar estará a 20 km da mesma. Dois exemplos simples ilustram situações caricatas que podem vir a ocorrer: uma pessoa da Madalena apanha o barco sem necessitar de utilizar viatura mas quando regressa de São Jorge tem que apanhar boleia ou pagar um táxi para chegar a casa; uma pessoa da Piedade vai de manhã na sua viatura até à Madalena (bem mais cedo do que se a viagem fosse via porto de São Roque do Pico), deixa lá a mesma e quando regressa à tarde tem que apanhar boleia ou pagar um táxi no sentido oposto à sua residência só para ir buscar a sua viatura e ter repetir depois a parte do trajeto em que pediu boleia ou pagou.

Como se pode concluir, explicar toda esta dinâmica do “horror-ário” a residentes e turistas é quase uma missão impossível! Mais ainda, repare-se como a ilha do Pico é discriminada relativamente às restantes ilhas do Triângulo: quem está no Faial e quer ir ao Pico ou a São Jorge dirige-se ao porto da Horta; quem está em São Jorge e quer ir a uma das outras ilhas do Triângulo dirige-se ao porto de Velas; quem está no Pico e quer ir ao Faial sabe que tem que se dirigir (e a meu ver muito bem) ao porto da Madalena (válido para a esmagadora maioria das viagens), mas se quiser ir a São Jorge tem que se dirigir... depende não só do dia da semana mas também se a viagem é operada pela Atlânticoline, para além de as horas de embarque variarem!

Da minha perspetiva, impõe-se então uma solução que vise tornar não só tudo mais simples mas também melhor. A minha sugestão é que as viagens entre as ilhas do Pico e de São Jorge escalem sempre o porto de São Roque do Pico. Esta é uma solução simples e tem a grande vantagem de facilitar a vida a todos os que pretendem atravessar o canal Pico – São Jorge: quem quisesse viajar entre estas ilhas saberia onde teria que se dirigir, qualquer que fosse o dia da semana e independentemente da viagem ser operada pela Atlânticoline ou não. Além disso, seria mais fácil conjugar os horários do transporte marítimo com os dos autocarros que servem a ilha do Pico, criando aí sim um verdadeiro plano integrado de transportes para quem quisesse atravessar o canal Pico – São Jorge.

Provavelmente me dirão que o porto de São Roque do Pico, por ser o principal porto comercial da ilha montanha e onde atracam os navios porta-contentores (curiosamente o seu nome oficial é Porto do Cais do Pico, refletindo o facto de ter sido ao longo dos tempos o principal ancoradouro da ilha do Pico), não pode operar em simultâneo navios de mercadorias e de passageiros, e daí ser preterido em alguns dias. Eu refuto essa justificação, não só porque já observei essa operação simultânea no passado [ver foto no fim do post], como também no porto comercial de Velas, o qual tem o mesmo comprimento de cais acostável que o porto comercial de São Roque do Pico (110 metros, segundo a página 43 do PIT), operam em simultâneo navios de mercadorias e de passageiros.

A solução ideal para todos estes problemas seria então construir o mais do que prometido terminal marítimo dedicado de passageiros de São Roque do Pico. É a solução que traz qualidade de serviço aos passageiros marítimos, para além de abrir portas aos navios de cruzeiros de grande porte que queiram escalar a ilha onde a paisagem da cultura da vinha é património da humanidade e o seu complexo vulcânico é uma das sete maravilhas naturais de Portugal.

Sendo a avaliação de futuras infraestruturas portuárias outro dos âmbitos da comissão a que vossas excelências pertencem, apelo a que efetuem todas as diligências necessárias para que o terminal marítimo dedicado de passageiros de São Roque do Pico seja uma realidade no mais breve espaço de tempo possível. Os picarotos já esperaram bastante tempo por esta obra e eu gostaria de partilhar a minha definição de tempo de espera: em meados dos anos 90, um familiar meu disse-me “tu vais acabar um curso superior e não haverá qualquer porto novo aqui em São Roque”; eu, no meu otimismo, respondi que ia haver um novo porto porque estava prometido; passados mais de 15 anos, eu tirei uma licenciatura, um mestrado, um doutoramento e o novo porto de São Roque do Pico continua... em estudos!

Com os melhores cumprimentos e haja saúde,

Ivo Sousa

Anexo:

Post Scriptum: Esta carta aberta foi enviada para o correio eletrónico de todos os deputados membros da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Transporte Marítimo de Passageiros e Infraestruturas Portuárias (tendo obtido 1 resposta até agora). Adicionalmente, cópia desta carta foi enviada para a Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, através de correio eletrónico (a qual registou e agradeceu a carta).

Desenvolvimentos sobre este assunto:



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