quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

História da araucária junto ao Convento de São Pedro de Alcântara

Na mais recente das "Crónicas do Cais" do 'Jornal do Pico' (n.º 561, de 30 de janeiro de 2015), o amigo Francisco Medeiros debruçou-se sobre a história de vida da araucária junto ao Convento de São Pedro de Alcântara (a Árvore do Desejo - link).

Esta descrição detalhada garante que as gerações vindouras terão o registo escrito da história deste marco da paisagem do Cais do Pico, vila de São Roque do Pico.

De seguida reproduz-se o texto na íntegra, gentilmente cedido pelo seu autor, de forma a que mais pessoas tenham conhecimento do mesmo. Adicionalmente, no final deste post são apresentadas algumas imagens desta araucária, não só atuais mas também de quando era pequenina...

Um grande obrigado ao amigo Francisco Medeiros!

Haja saúde!



A ARAUCÁRIA JUNTO AO CONVENTO FRANCISCANO DE SÃO ROQUE DO PICO

Não se sabe ao certo a data em que ano foi plantada a Araucária existente no adro da igreja de São Pedro de Alcântara, anexa ao Convento de São Francisco, em São Roque do Pico. Mas se dissesse que é secular, não andaria muito longe da verdade.

Certo é que o Convento, com a Igreja anexa e a Araucária como ex-líbris, aquele conjunto, quando fotografados com a Montanha do Pico ao fundo, formam uma paisagem de rara beleza!

Muitas pinturas e fotografias daquela paisagem têm sido colhidas, ao longo dos anos, quer por profissionais e artistas, quer por amadores.

Após a construção do Convento e da Igreja, no adro e nos espaços livres de circulação, foram plantados vários arbustos, construídos canteiros e neles plantadas flores, que lhe davam um aspecto muito agradável. Era normal os conventos possuírem espaços ajardinados e bem cuidados pelos frades.

Ainda nos anos 60 do século passado, existiam alguns desses canteiros, já mal cuidados, que foram desaparecendo e os espaços foram sendo cobertos com bagacina, com se vê actualmente. Assim não dá trabalho.

Durante o mês de Janeiro começam a cair das pinhas da Araucária e as suas sementes ficam espalhadas pelo chão, algumas delas caíam nos canteiros, germinando pequenas plantas, que as pessoas levavam, mas pelo que me é dado observar não há assim tantas Araucárias por aí. Tenho visto em vasos algumas Araucárias, que quando pequenas são bonitas plantas de adorno, mas as Araucárias para se desenvolverem naturalmente necessitam de espaços amplos, pois as suas raízes, algumas visíveis no solo, prolongam-se por muitos metros e podem danificar as construções próximas.

A água das chuvas, que caiam nos telhados e no adro da Igreja e do Convento em grande abundância, saíam adro fora, levando consigo as leves sementes da Araucária para a rua João Bento de Lima, juntando-se às águas que corriam junto ao passeio desta rua engrossando o caudal, continuavam junto ao passeio, atravessavam a estrada no cruzamento com a rua do Cais, seguiam junto ao muro do actual jardim da Florestal, entravam num bueiro, indo desaguar na costa. Acontece que uma daquelas sementes, da Araucária entrou na fenda de uma rocha na costa e ali se desenvolveu à entrada do jardim da Florestal e, para a proteger o Administrador, José Simas, mandou prolongar o muro do portão de entrada.

Hoje é uma bonita árvore, com mais de 20 metros de altura. Assisti ao seu crescimento, pois todos os dias ia trabalhar para a antiga Delegação Marítima, hoje degradada, em frente ao jardim da Florestal, que também possui duas grandes Araucárias.

O crescimento daquela pequena Araucária na costa despertou-me a curiosidade e levou-me, erradamente, a pensar que aquela pequena árvore era fruto de uma das sementes das Araucárias ali em frente, mais próximas, mas estava enganado. Passei a observar as sementes sementes que caiam no jardim do edifício e verifiquei que estas nunca germinaram.

Um dia, seguindo a pé junto ao muro, vi numerosas sementes de Araucária até à entrada do bueiro e também depois deste, por entre as pedras da costa seguindo a direcção onde a pequena Araucária crescia. Estava explicada a origem da semente.

Em data que não sei precisar, talvez princípios dos anos 70, uma grande tempestade, com chuva e ventos fortes do Sudoeste, acompanhada de trovoada, um raio partiu a Araucária do Convento.

O Presidente da Câmara, Francisco Ramos Ferreira, mandou proceder à limpeza dos ramos caídos, contactou o Eng.º Silvicultor Ilídio Gonçalves e, sob a orientação deste, procedeu-se ao corte da parte afetada da Araucária e nela foi aplicado um produto com o objetivo de salvar a árvore.

Observada com frequência, algum tempo depois verificou-se que o corte não tinha dado resultado, a árvore continuava a apodrecer a partir do topo. Muitas pessoas duvidaram da sua recuperação. Procedeu-se a novo corte, foi aplicado outro produto e assim saíram dois novos rebentos. Por sorte, o maior era o que estava mais próximo do prolongamento do tronco.

Hoje é uma árvore que admiramos e a sua recuperação foi um milagre da natureza.

De iniciativa do nosso conterrâneo, doutor Ivo Sousa, foi colocada junto à Araucária do Convento uma placa, com dois textos de sua autoria, em Português e Inglês, com o título A Árvore do Desejo, do qual se reproduz o seguinte excerto:

"No outro lado do mundo, na Austrália em Sydney num jardim botânico existe uma árvore irmã desta: é da mesma espécie, tem cerca da mesma idade e também sobreviveu a uma violenta tempestade na sua juventude. É também uma árvore muito especial. Em tempos idos as pessoas acreditavam que era possível pedir um desejo andando à sua volta..."

Concluindo que para pedir um desejo "basta vir até aqui ao adro do convento de São Pedro de Alcântara, porque ela também é uma Árvore do Desejo".

Francisco Medeiros

Vila de São Roque do Pico
Janeiro de 2015

Nota do autor: Esta crónica no 'Jornal do Pico' tem erradamente como sendo Presidente da Câmara António Simas de Costa. Por informação de um familiar procedi à rectificação para Francisco Ramos Ferreira. Pelo lapso peço desculta aos leitores.






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